OPNIÃORAIMUNDO NEY

Coluna Raimundo Ney – Extremo Sul do Piauí, comércio ou política?

Raimundo Ney 

Deflagrada está a campanha política para as eleições de outubro de 2018. Os sacoleiros que estavam dormindo já estão despertos, mesmo diante dos escândalos, em cada esquina, mercanciando seus votos.

O processo político, no extremo sul piauiense, apesar de todos os imperativos do Código Eleitoral, tornou-se extremamente inflacionado, e como, afinal, a disputa é intensa e as regras heterodoxas claríssimas: ganha quem tiver mais dinheiro para comprar.

Por isso, o que menos se vê na polis, salvo honrosas exceções, são eleitores. Já que a maioria se posiciona como cabo eleitoral, pleiteando sua comissão, até a próxima safra eleitoral.
Talvez, por isso, seja compreensível entender a lógica da ausência ou presença quase inútil, de representantes do extremo sul na Assembléia Legislativa do Estado do Piauí. Muito embora, se reconheça algumas situações isoladas.

O debate sobre a questão é tormentoso e pode gerar discussões fervorosas e até passionais, bem como inimizades que extrapolam o campo político, pois discutir as ciências políticas, com as questões periféricas que a envolvem de maneira lúcida, requer, no mínimo, a compreensão das lições do jurista do século, o baiano Rui Barbosa, em Política e Politicalha, onde afirmou com excepcional propriedade: Política e politicalha não se confundem, não se parecem, não se relacionam uma com a outra. Antes se negam, se excluem, se repulsam mutuamente. A política é a arte de gerir o estado, segundo princípios definidos, regras morais, leis escritas, ou tradições respeitáveis. A politicalha é a indústria de o explorar a benefício de interesses pessoais”.

 Rui Barbosa previu tudo

Observa-se que ao se aproximar o instante maior da cidadania, uma apatia, descrença e desinteresse se apossam do povo, tudo é balcão!! Quantos carrões não vemos rondar nossas cidades, vistos por eles como currais, em busca da mercadoria valiosa do momento? E o povo continua pobre, com fome, sem remédio, sem escolas funcionando a contento, sem merenda, sem dignidade, literalmente sem nada, sem esperança, numa visível prisão sem grade!! É como se não houvesse necessidade de manifesto do eleitor, no contexto político, ou se as decisões de tal seguimento em nada refletisse ou significasse em nossas vidas!

Ora, é necessário o chamamento que conclama a todos, dentro dos seus próprios ciclos, e de acordo com os seus esclarecimentos, participarem do processo político, articulando aos menos esclarecidos acerca do melhor perfil de candidato e partido, pois que só assim seria vencido o infeliz vício do toma-lá-dá-cá de cada eleição. Outrossim, quedar-se indiferente, seria assumir uma neutralidade ou omissão com as conseqüências oriundas daí, mas diuturnamente experimentadas.

Embora a liberdade de escolha e de opiniões sejam um direito e garantia assegurado por lei; por outro lado, conformismo e entreguismo em relação à antiga política ditatorial da caatinga, reimplantada, certamente revela-se a pior prática. Indiferença e omissão, através de votos brancos e nulos, também, surgem como um protesto surdo e incoerente. Não é correto, quem assim vota, elege o pior.

Muito já se discutiu acerca da falta de união do povo sul piauiense, isso sempre é pauta de muitas discussões, pois só votamos no povo do Norte e eles estão mais comprometidos com o povo de lá, vejam a diferença existente entre o sul e o norte de nosso Estado.  Mas, em que pé está o assunto Estado do Gurguéia? Silenciamos sobre isso. Façamos um meia culpa.

No contexto político, apesar de, noutras circunstâncias, como carnavais, festas folclóricas, futebol, e congraçamento em bares e botecos, graças aos festejos das cidades da região sul, a população tem se aproximado mais. Assim, vê-se que este debate sadio sobre a aproximação do povo, em favor do município deve acontecer.

Inclusive, para que possamos deixar de pensar no individual, para agirmos em nome do coletivo. A AMES seria uma ideia boa se não tivesse a questão do individualismo municipal. Somos todos extremistas, do extremo sul do Piauí!! Essa é a nova dinâmica de todas as sociedades em seus diversos seguimentos organizados.
Mas quero incluir aqui Corrente, especificamente, minha cidade natal, minha terra, Capital da Cultura, que perde, no contexto político, em razão do amadorismo para coalizões, onde os pactos iniciais se descumprem, antes do resgate, em virtude de picuinhas domésticas e do individualismo.

A cidade sofre, sem representatividade política, ao ignorar e desprestigiar nomes e possíveis candidatos da casa, como se ratificasse o axioma popular: “santo de casa não faz milagres”. Talvez, por isso, estejamos, até hoje, sem um pólo turístico, agrícola, pecuário, ou até industrial, capaz de gerar empregos necessários e atrair o respeito e a importância que realmente somos. O “eu” prejudica muito, precisamos mais de “nós”.

A pobreza existe e é alarmante. Falo com conhecimento de causa. Aliás, caso inexistisse essa dispersão, não teríamos visto, por exemplo, a saída do pólo regional de saúde daqui, do posto da receita federal, UFPI, etc., e dos investimentos maciços estaduais em outras cidades próximas. Na politicalha dos gabinetes, tapa-se os olhos para a realidade coletiva, privilegiando familiares, aliados e assim por diante. Cito, por exemplo, a recente entrega de duas ambulâncias em Corrente. Tudo bem, até concordo que essas ambulâncias sejam bem-vindas e que não deixa de ser uma ação positiva.

Mas será se são prioridades, quando vemos um Hospital Regional de Corrente falido e mal administrado, sem ter sequer material básico para tratar de um simples ferimento? Hospital este que dá alta a pacientes por não ter condições de mantê-los internados?   Assim, enquanto os de cá não se unem, fortalecendo o pacto político, os vizinhos aproveitam da fragilidade, para se fortalecerem.

Quando se vê cidades, como Bom Jesus, São Raimundo Nonato e Floriano jamais ficarem sem representantes, verdadeiros representantes, na Assembléia Legislativa, isso revela que eles aprenderam, bem mais fácil, a lição de resguardar o sentimento bairrista, para não se omitirem no processo político. O resultado é de uma gente assistida e representada, a todo tempo, em seus pleitos. O que não tem se dado, infelizmente, com a Capital da Cultura.

A lição de meu saudoso pai, Dr Filemon, ainda repercute em meu subconsciente. Ele bem que sabia da força e importância da família correntina estar unida. Inclusive para recepcionar os seus filhos, que noutras paragens, foram aprimorar conhecimento, a fim de melhor servir a sua gente.

Acreditamos que a necessidade aproximará os filhos abençoados de Corrente, essa hora vai chegar. Espero que com o falecimento político de alguns quadros e renovação de nossos representantes, desde a Câmara Municipal até os legislativos Estadual e Federal, isso mude, preservando o que temos de bom e extirpando o que houver de ruim.

Os filhos de Corrente deverão ser, sim, os nossos candidatos, com os seus erros e acertos, equívocos ou omissões. Para que aquele outro, de outras paragens, salvo justificadas exceções, ao aliciarem os votos de alguns, por meio de agenciadores políticos locais, não recebam nossos eleitores, na Assembléia do Piauí, ou no Congresso Nacional, com repulsa, ou com um discurso já ensaiado: “Suma. O seu voto eu já paguei, não tenho mais nenhuma satisfação a te dar, e nem tampouco à sua terra, ou à sua gente!”

As revelações contidas nas delações “vazadas” na imprensa nacional parece algo pitoresco, não fosse sua infeliz verdade. Notadamente há políticos piauienses, na esfera federal e estadual, a maioria do norte, senão todos, e que foram eleitos com votos do extremo sul, que sequer tem a honradez de se explicar a nós esses fatos. Eles nos devem satisfação sim. Mas não precisam, já tem por aqui, isso mesmo, aqui no extremo sul, seus defensores que os blindam diuturnamente e, quando conveniente, calam-se, estimulados por contra-cheques e cargos comissionados para fazerem esse papel de advogado do diabo.

Acontece que Corrente não é terra de ninguém. Por isso, a Terrinha conquistou com suor, lágrimas e sangue, a sua liberdade política, e não abrirá mão disso tão facilmente através de uma neutralidade ou indiferença política ou, ainda, pela omissão de alguns filhos seus que não merecem ser vistos como tais.

Por fim, no sistema de governo e regime político adotados pela República Federativa do Brasil, necessitamos de parlamentares, cabendo exclusivamente a nós separarmos o bom do mau político. E, principalmente, porque comumente nos quedamos inertes, à guisa de ilustração, em nome de um membro de família, que está sendo favorecido pelo sistema vigente, e termina por amordaçar a voz da razão de muitos.

Insta salientar que a cláusula pétrea do voto se dá de forma secreta, direta e obrigatória. Assim, esse é o momento do desabafo feliz de todo extremo sul piauiense e de Corrente. Urna é símbolo de liberdade ao povo no regime democrático. Sejamos, pois, livres, autênticos e conscientes em nome de um Estado e Município viáveis, que irá ficar para os nossos filhos e netos. E, principalmente, para que não cheguemos a uma condição de termos vergonha de sermos honestos, apesar de vivermos numa época em que muitos ignorantes comandam letrados, como se quisessem fazer crer que a ignorância virou ciência.

Assim, grito corajosamente: sou candidato a eleitor! Acrescento a isso, apenas que, nessa condição, posso, e devo exercer o meu fiel direito de fiscalização àqueles, que nas urnas, depositei, e tenho depositado, confiança como meus legítimos representantes, os quais prefiro que sejam conhecedores de minhas necessidades enquanto povo, não aqueles que me visitam de quatro em quatro anos.

* Raimundo Ney de S. Nogueira Paranaguá é de Corrente-PI, advogado militante, formado em Ciências Jurídicas pelo UNICEUB/DF, pós-graduado em Direito e Jurisdição pela escola Superior da Magistratura do Distrito Federal – AMAGIS-DF.

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