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Bom Jesus- Cânions do Viana: o corredor que o rio escavou

Não há atalho para chegar aos Cânions do Viana, e talvez seja isso o que os faz tão valiosos. Quem quer conhecer esse outro paraíso piauiense precisa rodas um bom trecho pelas rodovias do Piauí e, depois, entregar o carro às estradas de terra, poeira e chão aberto. A (longa) viagem faz parte do destino que, quando enfim aparece, recompensa cada quilômetro.

O Guia do Vianjante está no final da matéria!

Os cânions ficam na região de Bom Jesus, no Sul do estado, e formam uma espécie de corredor natural, com paredões de pedra dos dois lados. É o resultado de milhões de anos de erosão provocada por um rio que, com paciência de eternidade, foi cortando a rocha até desenhar um desfiladeiro de 50 a 60 quilômetros. Um rio que, tantas eras depois, ainda está presente na memória da pedra. 

Mas de que rio se fala, se o Piauí de hoje tem tão poucos rios com água o ano inteiro? Érico Gomes, geólogo, responde com uma viagem no tempo. “Até aproximadamente 10 mil anos atrás, o clima do Piauí era tropical. Os rios eram perenes”, lembra. Hoje, só o Parnaíba e o Uruçuí-Vermelho mantêm água o ano todo; os demais são intermitentes, “têm água no período da chuva, mas, depois que a chuva passa, não têm mais”. Naquele passado de chuvas o ano inteiro, o cenário era outro.

O geólogo faz a importante ressalva de que não existe estudo específico sobre o Viana. Ainda assim, diz, aquela feição “provavelmente deveria ser um ambiente onde se instalavam rios no passado, em um processo erosivo associado a falhas geológicas”, como acontece no Cânion do Poti, em trechos do Parnaíba e nos vales do Canindé e do Gurguéia.

A explicação é quase uma receita. A falha geológica quebra a rocha, a água da chuva escorre pelas regiões fraturadas e vai se aprofundando e escavando ao longo do tempo. “A água vai aprofundando, erodindo, aprofundando novamente. Como a rocha já está toda quebrada pela falha geológica, termina por formar essas feições de cânions”, resume. É a paciência de milhares de chuvas escrevendo, na pedra, um corredor.

Parte do território pertence ao Parque Nacional da Serra das Confusões e o passeio em si acontece na parte de baixo, onde se encontra um conjunto de propriedades particulares, fazendas que abrem suas porteiras a quem chega com respeito. O percurso completo, ida e volta, fica em torno de 110 quilômetros, dos quais cerca de 10 são de asfalto e o restante é de terra e areia. Por isso, o passeio é indicado para carros altos, 4×4, ou carro próprio acompanhado de guia.

A estrada até lá é longa. Saindo do Teresina, é preciso pegar a BR-135 em direção a Bom Jesus e seguir por algumas horas. O trajeto até o município é de aproximadamente 600 quilômetros. A entrada pode ser feita por Bom Jesus, ao Norte, ou por Caracol, ou Sul, pelo lado da Serra das Confusões.

Pelo lado de Bom Jesus, a travessia é repleta de paisagens que ficam na memória. Passados 29 quilômetros da área urbana, a rocha começa a se erguer. Após mais 21 quilômetros em meio ao cenário, e outros 27 entre cânions, e o viajante avista a gruta do Viana. Daí, são cerca de 2 quilômetros até um morro, que precisa ser subido para quem deseja alcançar a gruta.

A lenda da região associa à paisagem à típica força piauiense. Reza o conto que, no passado, indígenas teriam aberto caminhos pelos paredões na tentativa de fugir da seca, rumo ao Vale do Gurguéia. A história em comprovação oficial, é daquelas que o povo conta porque gosta, mostrando que o sertão sempre foi lugar de fuga e de resistência, e é bonito imaginar que a pedra tenha sido, um dia, abrigo e rota de esperança.

O lugar ainda é pouco explorado, especialmente em comparação a outras paisagens do Piauí, como a Serra da Capivara. Quem quer aventura encontra nos Cânions do Viana quase um segredo. Quem quer segurança, por sua vez, precisa entender que o isolamento tem o seu preço. Por mais aventureiro que se seja, a recomendação é de viajar com guia, manter-se bem orientado, e levar água, combustível, comida, carregador e paciência.

A natureza não é inimiga, mas também não é parque de diversões, e merece ser tratada com a seriedade de quem conhece o próprio tamanho. Por isso mesmo, os Cânions do Viana são, também, um convite ao turismo consciente. Para Érico Gomes, o estado inteiro, “desde a serra onde nasce o Rio Parnaíba até o Delta”, é um patrimônio natural de dimensões fantásticas, que ainda tem muito a ser “estudado, caracterizado, entendido e planejado” para um turismo sustentável, de base natural.

Cada visitante que chega com respeito, guia local e vontade de aprender fortalece uma cadeia de pessoas que vivem do lugar, como proprietários, condutores e comerciantes de Bom Jesus. É o tipo de turismo que não precisa ser grandioso para ser transformador.

O nosso belíssimo Piauí é repleto destas paisagens capazes de competir com qualquer cartão-postal do mundo, mas que ainda vivem do ‘boca a boca’. O Viana é um desses casos. Não grita, não faz propaganda, não tem filas. Espera, com a calma da pedra, que alguém decida percorrer seus corredores. E quando esse alguém chega, descobre que o rio nunca foi embora de verdade, mas apenas mudou de forma, virou desfiladeiro, virou história.

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